Estudantes unem-se contra o cyberbullying em Indaiatuba/SP

Alunos e professores de Escolas Estaduais em Indaiatuba desenvolvem projeto virtual contra o cyberbullying

Os alunos das Escolas Estaduais Suely Maria Cação Ambiel Batista e Prof. Hélio Cerqueira Leite, em Indaiatuba/SP, uniram-se para desenvolver um projeto contra o cyberbullying, com o intuito de conscientizar e incentivar os estudantes da cidade a denunciar esse tipo de crime.

Durante a pandemia de COVID-19, em uma das reuniões virtuais de alinhamento do grêmio estudantil, com a participação dos vice-diretores e professores mediadores – responsáveis pela solução de conflitos no ambiente escolar -, Thays Gabrielle, Wenzel Ferreira Cavaglier e Paulo Eugênio da Silva. Os alunos da Escola Estadual Suely, foram apresentados, pela professora Thays, à proposta do Conviva para trabalharem o cyberbullying durante as atividades on-line.

Juntos, a equipe de alunos – formada por 17 estudantes gremistas, com idade média de 15 a 18 anos, todos do Ensino Médio -, e professores analisaram as respostas do questionário do clima escolar e, apesar de não encontrarem casos específicos de cyberbullying na escola, desenvolveram uma forma de como agir durante a pandemia. Foi dessa forma, que surgiu a ideia da cartilha informativa sobre cyberbullying, com uma abordagem esclarecedora sobre a questão do bullying como agressão e não uma simples brincadeira entre estudantes.

Estudantes, vice-diretores e professores mediadores em reunião virtual. Foto: @helio_nial

Ainda durante as reuniões virtuais, os alunos das Escolas Estaduais Suely e Hélio se uniram para trabalhar em parceria e desenvolveram uma prévia do editorial da cartilha. A partir desse momento, o projeto foi todo planejado no formato virtual, através de grupos de WhatsApp e reuniões. Essa reunião também serviu para a criação do painel virtual da autoestima para fortalecer a interação entre os estudantes e uma conta no Instagram para promover o projeto: o @hélio_nial.

O que é cyberbullying?

O pesquisador canadense, Bill Belsey, é tido como a primeira pessoa a citar e definir a palavra “Cyberbullying”, no mundo. Esse termo teve origem com a junção das palavras cyber (cybernetic= cibernético), bully (valentão) e o sufixo ing, que indica a continuidade da ação exposta em um verbo.

“Nesse sentido, pode-se dizer que ao praticar bullying, o sujeito estaria, de alguma maneira, intimidando outra pessoa através de atitudes que em sua maioria são violentas, sejam elas verbais ou físicas. Tais comportamentos possuem como características em comum o intuito de ofender, humilhar, atacar e até mesmo agredir o foco das intimidações. Embora esse tipo de situação ocorra em diversos grupos sociais, é evidente que entre crianças e adolescentes haja um maior número de casos, devido à vulnerabilidade dos indivíduos pertencentes a esse grupo, assim como nas escolas, ambiente em que estes estão inseridos”, explica a psicóloga Isabela Berghe de Oliveira Conti*, pós-graduanda em clínica psicanalítica.

Uma pesquisa do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) de 2019, alerta que mais de um terço dos jovens em 30 países relataram ser vítimas de cyberbullying. No Brasil, 37% dos adolescentes que responderam à pesquisa afirmaram já ter sido vítimas desse crime virtual. Ainda, 36% desses participantes brasileiros informaram que já faltaram à escola após serem vítimas de cyberbullying pelos seus próprios colegas de classe, tornando o Brasil o país com a maior porcentagem nesse quesito na pesquisa. Mais de 170 mil jovens de 13 a 24 anos participaram dessa pesquisa.

Sobre o projeto

Os alunos das duas escolas de Indaiatuba são responsáveis por manterem ativos a conta do Instagram e o painel virtual da autoestima como um espaço de troca entre todos. O protagonismo desse gerenciamento é feito pelos alunos e os professores mediadores acompanham de perto essas ações e fazem a verificação das postagens.

Cartilha produzida entre os estudantes participantes do projeto das Escolas Estaduais Hélio e Suely

“Quando a cartilha ficou pronta ficamos muito felizes e satisfeitos com o resultado. Foi tão impactante que  os alunos propuseram dar vida por meio de um mascote a ação, foi aí que surgiu a ideia do ‘Sr. Hélionial’ e a aluna Fernanda Larroza da terceira série da escola Suely, que é ótima desenhista, deu vida a ele”, informa a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação Estadual.

Sr. Hélionial, um sinal de alerta para os “navegantes”. Ilustração de Fernanda Larroza.

Entre essas reuniões, os alunos tiveram a ideia de utilizar o mascote sr. Hélional como um tipo de sinal de alerta, para que os estudantes com dificuldades em pedir ajuda, pudessem enviar a imagem do mascote para um professor, gestor ou amigo e relatar as ameaças. Esse projeto teve início entre as duas escolas e foi amplamente divulgado pela Diretoria de Ensino de Capivari, para que essa iniciativa possa servir de inspiração e ser desenvolvida por outras unidades.

Durante todo o projeto, os alunos realizaram ações e reflexões relacionadas ao cyberbullying, principalmente nas aulas de projeto de vida, através de uma roda de conversa em que se explicou todo o conceito desenvolvido para que os estudantes também se sentissem à vontade para discutir o assunto.

“O objetivo maior do projeto é conscientizar que o bullying não é brincadeira e engajar os estudantes em ações voltadas ao combate do cyberbullying. Acredito que os alunos tenham compreendido a proposta e tenham repensado algumas ‘brincadeiras’. Nesse momento em que as relações passaram a ser intensas no ambiente virtual, o projeto foi de fundamental importância”, informa a assessoria de imprensa.

Segundo explica a psicóloga Isabela, mesmo sem existir uma maneira eficaz comprovada de combate ao cyberbullying, iniciativas como essa são válidas. “Assim como as redes sociais são o meio utilizado para disseminação de tal crime, acredito que somente através do mesmo canal poderemos encontrar forças o suficiente para combatê-lo”, frisa. 

Em novembro de 2015, a então presidente da República, Dilma Rousseff, sancionou uma lei contra o bullying e o cyberbullying, com o intuito de combater e prevenir essas práticas, principalmente no ambiente escolar.  A Lei Nº13.185 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) e a define como:  “todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas”.

Apesar da falsa sensação de segurança e impunidade que o agressor pode sentir utilizando as redes sociais, o cyberbullying se enquadra no Código Penal quando configurar crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria – Artigo 138 do Código Penal Brasileiro), crime de injúria racial (ataques racistas – Artigo 140 do Código Penal Brasileiro) e exposição de imagens de conteúdo íntimo, erótico ou sexual (Artigo 218-C do Código Penal Brasileiro incluído pela Lei 13.718, de 2018), seja através de redes sociais, e-mail, mensagens de celular, vídeos ou outros meios.

A pena prevista no Código Penal Brasileiro pode chegar a quatro anos de reclusão. Além disso, o agressor pode ser condenado a pagar indenização por dano moral. Caso o agressor seja menor de idade, os seus responsáveis respondem pelos crimes e podem ser condenados a pagar indenizações à vítima.

Como evitar e tratar os traumas?

Como explica a psicóloga Isabela Conti, com o desenvolvimento da tecnologia e a imersão dos jovens cada vez mais nas redes sociais, os fenômenos existentes em suas realidades foram reproduzidos de alguma forma no mundo virtual, em uma velocidade muito mais rápida, graças à internet. Ou seja, a violência que outrora existia no mundo real, fisicamente, se disseminou nos meios digitais, através de ofensa, humilhação e na tentativa de denegrir a imagem da vítima.

Em função dessas práticas negativas, pessoas submetidas ao cyberbullying podem apresentar sintomas de ansiedade, transtornos alimentares, irritabilidade, depressão, insônia, pensamentos destrutivos, dentre outros, sintomas prejudiciais à saúde mental e integridade de qualquer pessoa. “Principalmente crianças e adolescentes que estão em fase de desenvolvimento e podem enfrentar consequências desses ataques no decorrer da vida adulta”, frisa a psicóloga. 

Um ponto que merece atenção especial nesse tema é o uso excessivo das redes sociais. Esse costume que não é exclusivo dos adolescentes, pode se tornar um problema à parte quando falamos em saúde mental. A psicóloga Isabela Conti explica que a atual disputa por ‘likes’ esconde na realidade, uma necessidade constante de aprovação e quanto mais a pessoa se torna dependente, mais instável emocionalmente pode se tornar.

“Além disso, devido ao alto índice de exposição, com muita facilidade recebo no consultório questionamentos como ‘por que as pessoas estão sempre fazendo coisas tão legais e eu estou sempre tão miserável?’. A reflexão que proponho é sempre a mesma: para postar uma foto, a pessoa não precisa necessariamente estar feliz”, argumenta.

Existe algum tratamento para vítimas de cyberbullying?

Apesar de serem práticas pouco conhecidas e debatidas, o cyberbullying, o bullying e o uso excessivo de internet possuem tratamento, porém, assim como cada pessoa é única, cada caso precisa de uma análise e trabalho diferenciado.

Vítimas de cyberbullying precisam trabalhar a recuperação da  autoestima, principalmente através da psicoterapia. Em casos assim, o profissional trabalhará com o paciente a ideia de que a culpa pela perseguição e humilhação que enfrenta não é sua, e que o sofrimento eventualmente acabará.

Para que os pais e responsáveis possam prevenir e educar as crianças e adolescentes sobre o cyberbullying e os perigos existentes nas redes sociais, a psicóloga Isabela deixa claro que a transparência é sempre o melhor caminho, além de fortalecer o vínculo familiar.

“Orientar as crianças e adolescentes a nunca aceitarem solicitações de amizades de desconhecidos em redes sociais; informar os pais ou responsáveis caso seja vítima de cyberbullying ou presenciar uma situação parecida; ensinar a importância do respeito para com os demais, evitando assim, a disseminação de conteúdos maldosos. Já no ambiente escolar, cada vez mais, deve haver busca pela construção de um ambiente onde exista respeito, ética e segurança”, finaliza. 

* Isabela Berghe de Oliveira Conti é psicóloga pela PUC de Campinas e pós-graduanda em clínica psicanalítica. Trabalha com atendimento clínico de adolescentes e adultos presencialmente na cidade de Indaiatuba e on-line, prática regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia desde 2018, que permite o atendimento de pessoas ao redor do mundo. Telefone/WhatsApp (19)99212-2129; Instagram: @psicoisabelaberghe

Foto de cottonbro no Pexels / @helio_nial / @helio_centrismo / @otalcolonial

Fernando Silva – Indaiatuba/SP

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